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Um jardim de vulvas em nosso pomar
19.11.21
Luiza Martins

Um jardim de vulvas em nosso pomar

Era manhã de novembro. Dessas que convidam a gente a deitar na grama fresca e se perder no azul sem nuvens do céu, surfando nas ondas desse oceano mineiro que é o mar de morros. Mas não sem antes percorrer, sem pressa, cada espécie do pomar. Ritual sagrado das manhãs de sábado no nosso refúgio familiar.

Banana prata quase pronta no cacho. Manga rosa ainda verdinha. As pontas dos dedos vermelhas denunciando um ataque sorrateiro nas únicas amoras maduras do pé. O tronco vazio da jabuticabeira mirim, que nos encoraja a planejar o futuro, sonhando com o dia em que ela estará toda pretinha coberta de frutos. O pomar tem dessas coisas. É como máquina do tempo. Nos faz desejar o futuro, nos leva ao passado em um cheiro ou nos prende num presente perfeito que acontece no intervalo entre a mordida e o suspiro.

Tudo indicava que a viagem aquele dia seria para o futuro. Quase nada ali estava maduro. Foi quando o aroma cítrico da laranjeira desviou nosso caminho. Laranja não é o tipo de fruta que se come no pé. Mas pouco importava. Daria um bom suco, eu pensava. Uma acidez suave, quase doce, entrava pelas narinas e desembocava na boca inundando tudo.

Com água na boca. É como eu estava quando me deparei com aquele monumento. Vê-la despudoradamente despida em plena luz do dia, causou-me tal deslumbramento que me peguei paralisada, com os lábios molhados ao acariciar os dela. Não dissemos uma palavra, mas nem precisava. A gente se entendia. Ela sabia o frisson que me causava com seu ato de rebeldia. Olhei para cima, como que para agradecer por aquele encontro e qual não foi minha alegria ao notar que ela não estava só. Tinha um jardim de vulvas no nosso pomar! Enormes, carnudas e todas desnudas, menos a minha, que permanecia comportadamente velada debaixo de uma peça de roupa encharcada.

-Isso é papo de peru. Ele me disse, interrompendo o silêncio daquele instante de infinito. Que alusão certeira do poeta itabirano! De fato, são segundos que duram uma vida inteira. Ele então continuou sua explanação, acrescentando se tratar de uma espécie de trepadeira cuja flor se assemelhava à saliência carnuda que se destaca no pescoço dessas curiosas aves galináceas e por isso ganhava esse nome.Balancei a cabeça sem concordar enquanto voltava meus olhos para ele depois daqueles segundos de hipnose.

- Deveria era chamar papo de vulvas, respondi sem papas na língua, pois era exatamente o que acabara de acontecer ali.

Ele sorriu. A gente se olhou por um tempo, em silêncio. E de mãos dadas, fomos embora apressados. Precisávamos, urgentemente, deitar na grama fresca para terminar aquele papo.

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